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9789897620003
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Livro Brochado
Vôvô Bartolomeu Vôvô Bartolomeu desde manhãzinha que olhava o pardacento céu, enrugando a já bem engelhada testa. – Vôvô , que é que você está a ver no céu? – Estou vendo uma coisa que você vai ver só, logo no meio-dia, e que a estas horas já chegou lá no sô Luca. – Que é que tem lá no sô Luca? – Diga nos homens para trabalhar com pressas, senão você vai ver só: ninguém que pára com chuva. E vôvô Bartolomeu entrou arrastadamente na cubata, donde saía um fumo bem de fogueira quente. Ainda o ouvi cantar Mano Santo iá Kifumbe Eh! Eh! Eh! Eh! – Eh! pessoal! Vamos despachar o serviço. Vôvô Bartolomeu disse que vai vir chuva. E todo o pessoal começou a trabalhar com força, para acabar de recolher o milho, quase para o meio-dia. A colheita não tinha sido má, e para este ano havia de pagar todas as contas e ainda sobrava dinheiro para dar o alembamento da filha do velho Gonga. (...) Aquele milho bonito que devia dar pra pagar as contas do alembamento. Ainda devia chegar pro imposto e escapar de ir no contrato. Se o imposto subiu? Não sei, mas parece que este ano o imposto está mais caro! Depois tinha de comprar fiado um sobretudo na loja do sô Maganlanji. (...) Ficou tudo escuro. O pessoal estava satisfeito, mesmo nunca na minha vida ficara tão contente. Se vendia milho ia amigar com a filha do velho Gonga. (...) Nisto, do céu caiu um raio e caiu mesmo em cima da cubata que tinha o milho e tudo começou a queimar. Eu, o pessoal, as mulheres, a garotada, e o vôvô Bartolomeu viemos para fora, sem medo da chuva que chovia, para apagar o fogo. Qual nada! O milho queimou mesmo. (...) Estava a olhar as cinzas e nos olhos veio água, muita água de chorar, que não era chuva, não. Vôvô Bartolomeu ficou muito grande, rijo, muito grande, pôs-me a mão no ombro e disse: – Sorte de preto! Olhei o meu arimbo. Meus pés descalços pisaram bem aquele chão, aquela terra que cheirava a chuva e era toda minha. No meu nariz entrou a força toda que vinha da terra grande. A chuva corria como o rio lá ao fundo naquela baixa. E os paus de café estavam lavados, estavam verdes, estavam bonitos, bonitos e novos como a ilha do velho Gonga. Não, eu não ia ficar assim parado a pensar na sorte de preto que vôvô falou. Não. Aquela terra tinha força. Eu também. Amanhã eu ia mesmo, com a minha força toda, limpar a lavra do café In “Vôvô Bartolomeu”, excerto
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Author António Jacinto
Publisher Editora das Letras
Edition no. 3
Year of publication 2015
Page numbers 25
Format Livro Brochado
Language Portuguese
ISBN 9789897620003
Country of Origin Angola
Dimension [cm] 23 x 16
About Author António Jacinto é o pseudónimo literário do poeta António Jacinto do Amaral Martins; Trabalhou durante alguns anos como escriturário, desenvolvendo nessa altura actividades literárias e patrióticas.
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